quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Espaço para a vida


Uma amiga costuma dizer que é preciso abrir espaço na vida para as boas coisas entrarem. Se elas chegam e se deparam com lotação geral, desistem e vão embora. Isto vale para tudo. Aqueles trajes e calçados enchendo o armário sem que você se sinta confortável para usar são bons exemplos de guardados desnecessários. Às vésperas do ano que chega, seria muito proveitoso – e solidário – juntar os pertences inúteis para você e doá-los à finalidade que lhes deu origem. Traje foi feito para vestir e sapato para calçar. Nenhum deles, para guardar.

Importante: nada de se ressentir das doações. Doe de coração e perceberá o quanto é bom se desfazer de itens que serão festejados por quem tanto precisa. Não é só. Sentirá a alegria de livrar-se de apegos tolos que povoavam seu cotidiano sem acrescentar nada a sua vida.

Já que o tema é faxina, vale uma profunda reflexão sobre os habitantes da sua alma. Mágoas, rancor, desprezo e tantos outros sentimentos ruins ocupam o dobro do espaço das emoções positivas. Pior. São uma carga muito pesada que espanta a alegria, o carinho, o amor, a vontade de viver mais e melhor. Então, aproveite os momentos finais do ano que se despede para aparar as arestas com o que quer que tenha gerado ocupantes indesejáveis no seu interior.

Se vai vestir branco na virada do ano, pular sete ondas, dar três tapinhas no poste mais próximo ou fazer qualquer outra simpatia, ótimo. Mas, tome uma atitude de bem para 2011: limpe sua alma, derramando sobre todas as dores e sentimentos ruins o sagrado bálsamo do perdão. Isto mesmo. Perdoe quem lhe causou frustrações, faça as pazes com os amigos que se distanciaram, reate os laços com familiares de quem você se afastou e restabeleça a harmonia no seu cotidiano. Você vai se sentir livre e leve.

A Terra se prepara para completar mais uma volta de 365 dias em torno do Sol. Festeje o momento com a alma lavada, livre de qualquer carga inútil, sensível à beleza das coisas simples e aberta à felicidade. Sonhar é sempre bom. Como diz a canção, “alimenta o tempo acordado de viver”. Mas, não adianta guardar planos velhos que, você sabe, não sairão do papel nem do seu cenário mental. Revigore as energias da mente, formulando planos que tenha vontade de realizar. E batalhe por eles. Verá que os antigos e empoeirados projetos não lhe interessavam mais. De novo, sentirá o alívio de deixar de carregar peso morto e passará a respirar a vontade imensa de lutar pelos novos rumos que traçou.

Não sou nenhum destes célebres escritores de livros de auto-ajuda nem profissional especializado em tratar de conflitos psicológicos. Sou apenas alguém compartilhando com você boas lições que tive ao longo da minha vivência.

Esta mensagem foi o modo que encontrei de manifestar meu profundo desejo de que você tenha um ano maravilhoso. Livre para amar e receber amor, forte para lutar pelos seus ideais, sensível para compartilhar os bons acontecimentos, hábil para lidar com situações não tão positivas, paciente para esperar dias melhores, solidário para confortar quem sofre, aberto para receber as boas coisas da vida e grato a cada amanhecer. Tudo, com muita fé, paz, saúde e as bênçãos de Deus. Feliz 2011!

Imagens produzidas pela minha amiga, a fotógrafa Mônica Antunes, no Parque Centenário, em Mogi das Cruzes.
Junji Abe é deputado federal - DEM

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Tempo de despertar

Penso em José e Maria nos dias atuais. Em meio à insegurança que atormenta os cidadãos de bem, haveria uma boa alma para acolher o casal pobre para o nascimento da criança que seria o nosso Salvador? Se a grávida Nossa Senhora batesse à porta junto com o marido e pedisse abrigo, você daria e lhes ofereceria comida? Ou os expulsaria feito doença ruim com medo de que fossem bandidos?

Todos estão muito atolados nos próprios problemas que têm dificuldades ou quase incapacidade de enxergar o sofrimento alheio. E para agravar a situação, existe o medo. De ser assaltado, usurpado, de ser feito de bobo, assassinado.
Esses pensamentos me vêm à cabeça às vésperas de mais um 25 de dezembro, o dia de comemorar o nascimento de Jesus Cristo. Mas, na atualidade, qual de nós daria abrigo a José e Maria para que os herdeiros deste planeta pudessem, no futuro, festejar o Natal? A resposta é um imenso ponto de interrogação.

A alma humana ainda guarda mistérios insondáveis. Em meio às árvores com bolas coloridas, recheadas de pacotes de presentes e reluzentes pisca-piscas, deixo-me absorver pelo clima natalino. Mas, a beleza que emerge do período não apaga da memória lembranças sombrias da agonia de tantos.

Dizem que o convívio com a violência e suas mazelas anestesiam o coração, fazendo com que a dor dos outros seja encarada como banal, mera notícia de jornal amanhecido que serve para embrulhar banana na feira. Não é verdade. Tanto, que me vêm à cabeça os rostos de vítimas das enchentes na virada do ano passado, de inocentes brutalmente chacinados nos conflitos entre traficantes e policiais, de amantes do futebol mortos nas guerras de torcidas, de universitários mutilados nos abomináveis trotes e tantas outras atrocidades que adoecem o cotidiano de gente de bem.

Enquanto muitos preparam o peru e os quitutes para a maravilhosa ceia natalina, não posso me furtar de pensar naqueles que amargam a falta de tudo. E, sequer, terão um pedaço de pão para comer neste Natal. A miséria é uma forma de violência tão cruel como as outras. Igualmente, tira do ser vivo a chance de sobreviver. Reflito sobre quanto sofre Jesus ao ver tanta desigualdade social. Uns com tanto; outros sem nada...

Dia destes recebi um e-mail para coletar assinaturas no abaixo-assinado em repúdio à crueldade contra animais na China. O link para a filmagem feita com câmera escondida trazia imagens que, até agora, parecem arrancar lascas da minha alma. Não bastasse a matança, os cães têm sua pele retirada enquanto ainda estão vivos. Por cerca de 10 minutos, o coração ainda bate, os olhos piscam e as patas tremem naqueles corpos decepados. A brutalidade é tamanha que tive de conferir se os carrascos eram mesmo seres humanos. Melhor seria que não fossem. Gostaria de acreditar que um ser humano é incapaz de cometer um ato tão abominável.

Não pensei meia vez em aderir ao abaixo-assinado, apelar aos meus contatos que também o fizessem e distribuíssem para seus amigos pedindo adesões. Em meio a meus pensamentos sobre o comportamento individual e a conduta social na atualidade, fui surpreendido. A maciça maioria das pessoas a quem pedi que engrossasse o rol de indignados com a prática selvagem na China aderiu ao abaixo-assinado.

A solidariedade dessas pessoas fez surgir no horizonte um feixe de esperança. Percebi que a sensibilidade ainda não foi engolida pela correria e problemas de cada um no cotidiano. Estávamos, todos nós, formando uma corrente do bem na expectativa de ajudar a combater uma tremenda injustiça.

Assim, me recordei da legião de cidadãos que se dedicam a levar um pouco de alegria às crianças pobres das favelas, distribuindo brinquedos no Natal. Também me lembrei daqueles que, o ano inteiro, servem comida aos necessitados. E de tantos que se esforçam para arrecadar mantimentos e roupas a serem doados às famílias necessitadas. E ainda de outros anônimos que doam seu tempo e dedicação para confortar quem sofre nos hospitais, asilos e abrigos. Sim, os humanos de verdade são bons. Procuram ajudar, buscam construir um mundo mais justo e mais humano.

De repente, a árvore de Natal a minha frente transmitiu uma nova leitura. A alma humana não está soterrada pelos atos criminosos que assolam o dia a dia. Ainda somos capazes de sentir, amar, protestar contra as injustiças, fazer valer a força do amor.
Com a esperança de que haveremos de ter sucesso na gigantesca luta contra as iniquidades sociais, deixo a cada um o apelo para que neste Natal façamos, em oração, uma corrente do bem. Vamos pedir ao Criador alívio para as dores dos que sofrem, alimentos para quem tem fome, abrigo para os sem-teto, conforto espiritual para os desconsolados, fé para os incrédulos e bondade na alma de gente ruim.

É tempo de despertar. E de orar. Pela paz mundial, pelo futuro do planeta, pelo fim das desigualdades sociais, pelo resgate do ser humano. Façamos neste mundo o que viemos fazer, sem desvios nem quedas. Assim, com nossos esforços e as bênçãos de Deus, José e Maria sempre terão acolhida. E Jesus poderá renascer sempre em cada um de nós, todos os dias. Feliz Natal!
Junji Abe é deputado federal - DEM

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Voto de confiança

Passaram-se pouco mais de dois meses do início da campanha eleitoral. Para candidato, uma verdadeira maratona contra o tempo. Às vésperas da prova das urnas e a poucas horas do início da proibição para que eu me comunique por via eletrônica, faço uma reflexão. Ou melhor, uma série de perguntas a mim mesmo.

Teria conseguido transmitir minhas propostas? Nas centenas de reuniões de que participei, será que falei com clareza para que todos entendessem? Assumi compromissos e tenho convicção de que, se eleito, irei cumpri-los. Mas, será que passei às pessoas a mesma segurança? Em meio ao emaranhado de questões, penso em como seria bom se o eleitor tivesse em mãos um espelho da alma de cada candidato.

Sim, porque as palavras correm o risco de serem perdidas ao vento. Mas, aquilo que cada um traz na alma é autêntico, cristalino e completo. Fala por si. Agora, recordo-me com emoção das enormes demonstrações de carinho que recebi ao longo deste período de campanha. É uma sensação indescritível sentir que o seu trabalho ajudou alguém. E que este alguém passou a querê-lo bem.

Igualmente, não existe definição para os sentimentos que afloram ao receber, por e-mail, a declaração de voto de alguém que nunca teve contato com você. Mas, aprovou suas propostas e, principalmente, depositou confiança em você.

Confiança – a palavra mais importante no vocabulário eleitoral. Pena que nem sempre seu significado receba a devida acolhida por parte de todos os concorrentes. Entendo que a confiança é muito mais que um tesouro. Não dá para enxergar, ouvir, tocar, cheirar, pegar e muito menos colocar preço. Ela simplesmente brota. Pode prosperar ou morrer. Muitas vezes, nem desabrocha. Fato é que confiança é sublime. Não se arranca nem se empresta. Confiança só existe quando é doada.

Escrevo o que sinto neste exato momento. Desculpe, se for desconexo.
Não sou marinheiro de primeira viagem. Mas, confesso que estou ansioso por domingo. Só quem já enfrentou o teste das urnas sabe direito do que estou falando. Delas, sairão a voz do povo, os termos da sua vontade. Eis a beleza suprema da democracia.

Sou um candidato ficha limpa, devidamente cadastrado no site Ficha Limpa. Sinceramente, gostaria que isto não fosse um diferencial. Esta deveria ser a obrigação de todo aquele que se propõe a atuar na vida pública. Da mesma forma que um agricultor precisa de vocação para lidar com a terra, o político tem de ser vocacionado a trabalhar pela sociedade e a lutar para atender seus anseios. Aí, deve residir sua fonte de inspiração.

Com a graça de Deus e pelos dons que Ele me deu, tenho cerca de 30 anos de experiência na vida pública. Já fui vereador, três vezes deputado estadual e prefeito por dois mandatos. Aprendi muito. E quero aprender sempre, porque quem para de aprender, morre por dentro. Extraí inúmeras lições da vivência como político. Mas, meu entendimento do significado de ser político não muda.

Continuo acreditando que é preciso ter vocação para atuar na vida pública. Continuo acreditando que a confiança é o bem maior que um político pode conquistar e tem de preservar. Continuo acreditando na força do povo, na sua capacidade de escolher e de fazer valer sua vontade.

Com esses sentimentos, caminho para o domingo de eleições. Com as certezas que trago na alma, peço muito mais que o seu voto. Peço que me doe a sua confiança. E deposite em mim a fé de que eu faça o meu melhor no exercício das funções públicas. Sou candidato a Deputado Federal e meu número é 2545.

Junji Abe é candidato a Deputado Federal pelo DEM - 2545

sábado, 24 de julho de 2010

Cultura, uma necessidade social

Décadas atrás, os governantes costumavam tratar a cultura como artigo de luxo. Portanto, supérflua para o povo. Não havia a menor preocupação em proporcionar opções gratuitas de eventos culturais, esportivos e de lazer. Muito menos de oferecer atividades que desenvolvessem o gosto pelas manifestações artísticas. O foco das ações públicas concentrava-se em obras. De preferência, as grandes, com alta visibilidade.


Essa visão míope de que as pessoas não precisam de cultura, nem de esportes e muito menos de lazer é responsável por um bocado dos males que tanto afligem a sociedade de hoje. É claro que a culpa maior é da má distribuição de renda que coloca o Brasil entre os países recordistas em desigualdade social do planeta.


O descaso com áreas essenciais ao bem-estar físico e mental do ser humano tem muito a ver com o alto nível de agressividade que as pessoas carregam. Basta olhar o comportamento dos motoristas no trânsito. São xingamentos por todo lado, reações exageradas – até tiros já saíram – e a incapacidade de, simplesmente, se desculpar por um erro cometido ou perdoar a falha do outro.


Na sociedade moderna, onde a pressão por causa do emprego ou pela falta dele está na veia de todo cidadão comum, as atividades culturais, artísticas, esportes e lazer tornaram-se fundamentais. Como a maioria da população não pode pagar por eles, cabe ao Poder Público oferecer opções gratuitas. E para todas as idades.


Repare como são bem mais tranquilas e disciplinadas as crianças que tocam um instrumento musical, participam de um grupo de teatro, enfim, têm acesso aos bens culturais ou praticam algum esporte. Certamente, serão adultos mais sensíveis, equilibrados, produtivos, menos propensos a ataques de raiva e problemas de saúde. Serão bem mais saudáveis.


Igualmente, os adultos também precisam ter a chance de participar de manifestações culturais e artísticas ou de, pelo menos, apreciá-las. Ou de praticar esportes. Ou de, no mínimo, contar com um parque público onde possa ir com a família no fim de semana, fazer um piquenique, ter momentos de descontração e lazer. Para a Terceira Idade, então, é vital ter acesso a atividades que permitam a socialização e tirem da cabeça do idoso a terrível sensação de ser um peso para alguém. São iniciativas que fazem bem ao corpo e à mente.


Outra bobagem é achar que o povo não gosta de arte. Gosta sim. Só precisa conhecer. Ninguém pode gostar do que não conhece. Senão, fica que nem a música do Zeca Pagodinho sobre o caviar: “Nunca vi nem comi; eu só ouço falar”.


Fique claro que quando se fala em cultura e artes não pode haver preconceitos. Nem da sociedade; muito menos do Poder Público. Ao longo da minha gestão como prefeito de Mogi das Cruzes, notamos o interesse dos adolescentes por rap, hip hop e dança de rua (a street dance dos americanos). Resolvemos criar oficinas culturais dessas modalidades. Muita gente criticou dizendo que eram ritmos da marginalidade. Ora, que sandice. É tão arte quanto música erudita e balé clássico. No caso, era mais. Era o que os jovens queriam.


A verdade é que a iniciativa foi um sucesso. Em vez de gastar o tempo ocioso nas ruas, a meninada ia, entusiasmada, para as oficinas. Em eventos, os grupos se apresentavam e arrancavam aplausos de quem antes criticava. A arte é plural. Aliás, na minha campanha à reeleição, fui presenteado com um jingle no estilo rap e coreografia de dança de rua. Fizemos um videoclipe, exibimos nos programas de tevê e todo mundo adorou.


Igualmente, eu e minha equipe das áreas de Cultura e Cidadania enfrentamos muita ironia e descrédito para criar a Orquestra Sinfônica Jovem “Minha Terra Mogi” com crianças pobres da Cidade. Bem, os queixos caíram no primeiro concerto. Meninos e meninas humildes, com violinos, violoncelos, piano e tudo mais, paralisaram a platéia durante a execução de uma série de músicas clássicas.


Nossa meta era proporcionar ocupação saudável para crianças e adolescentes. Dentro deste propósito, idealizamos uma Sala de Música sem igual na Região, com estrutura e acústica integralmente planejadas para a finalidade. O projeto foi realizado na Escola Municipal Professor Mário Portes, localizada em Jundiapeba. É o Distrito onde vive a maior parcela da população carente de Mogi. Ouvi uma porção de comentários maldosos. Para se ter ideia, diziam que o local seria destruído em menos de uma semana e outros absurdos típicos de gente preconceituosa.

Aos humanos de pouca fé, mais um show de cidadania. Ali, naquele espaço, os alunos aprenderam, ensaiaram e constituíram a Banda Sinfônica que coleciona prêmios em competições no Estado. Sim, tanto a Sala de Música como a própria escola são muito bem cuidadas. Há canteiros floridos, paredes intactas, nenhuma sujeira no chão e tudo mais que caracteriza o território de cidadãos de verdade.


É uma minúscula amostra de tantas outras ações públicas que difundem a cultura, promovem a cidadania e evitam que os menores fiquem nas ruas, à mercê das teias da criminalidade e das drogas. Houve muitos outros bem-sucedidos programas públicos para todas as idades, seguindo o raciocínio de que é indispensável a oferta gratuita de atividades culturais, artísticas, esportivas e de lazer à população. Mas, para não me alongar, falarei deles em outra ocasião. Só queria mostrar que, quando há vontade política em sintonia com os anseios da população, o Poder Público desenvolve iniciativas de valor inestimável para a sociedade do presente e do futuro.

Junji Abe
Candidato a Deputado Federal pelo DEM - 2545

sábado, 17 de julho de 2010

Combate ao desperdício inconsciente


Viadutos recém-entregues cobertos de pichações, praças restauradas numa semana aparecem depredadas na seguinte, monumentos amanhecem rabiscados, escolas têm salas inteiras destruídas e até posto de saúde vira alvo de vandalismo. Isto tudo são mais que crimes contra o patrimônio. É crueldade com o povo mesmo. Afinal, é a população quem paga pelos reparos, por meio dos impostos. Sem contar que os estragos em escolas e unidades de saúde significam crianças sem aula e gente sem atendimento médico.

Os gigantescos avanços da ciência, toda a revolução proporcionada pela informática, a evolução nas mais diferentes áreas do conhecimento humano não foram suficientes para cessar o comportamento medieval dos vândalos. Se ninguém, em sã consciência, destroi sua geladeira a marretadas, o que explica tanta violência contra bens que são de todos?

Não adianta dizer que basta colocar câmeras de vídeo para vigilância e reforçar o policiamento. São medidas necessárias sim. Mas, não resolverão o problema. Vou mais longe. Nem só pichações e destruição de patrimônio são agressões aos bens comuns. Jogar lixo na rua também é uma forma de violência contra os cofres públicos, o meio ambiente e a qualidade de vida da população.


Gasta-se uma fábula com limpeza pública. E o serviço não rende; mal aparece. Quando começa o trabalho em outra rua, aquela que acabou de passar por limpeza já está cheia de sujeira. Faça um teste e observe. As pessoas caminham comendo algo e dispensam a embalagem na guia. Se estão fumando, fazem o mesmo com a bituca do cigarro. Quem costuma lavar a calçada de casa sabe bem do que estou falando.

No trânsito, então, o comportamento de determinados motoristas e passageiros transforma a criança mais sapeca num anjo de candura. São latas que voam janela afora, caixas vazias de guloseimas, embalagens plásticas das mais diversas, garrafas e tudo o que se pode imaginar. É um show de horrores que ainda ameaça a segurança de quem trafega atrás.


Tudo isso ocorre no cotidiano sem que as pessoas se dêem conta dos efeitos de seus atos. Não existe a maldade de sujar – diferente dos vândalos quem têm prazer em destruir. Também não há o cuidado de manter a limpeza. Por mais que os garis trabalhem, não dão conta de tirar tanto lixo das ruas. Toda esta sujeira vai para bueiros e bocas de lobo. Entope galerias de águas pluviais e faz qualquer chuva virar causa de enchentes – as mesmas que tanto castigam a população, fazendo famílias inteiras perderem tudo o que têm. Ou então, os rejeitos caem nos rios e córregos, prejudicando o meio ambiente e forçando mais despesas com limpeza e desassoreamento dos cursos d’água. Os prejuízos se multiplicam numa proporção gigantesca. Também é o povo que paga por tudo isto. Logo, pergunto: é ou não uma violência?

O Poder Público, de modo geral, acaba só apagando incêndios. Põe dinheiro do povo para consertar os estragos do vandalismo, colocar câmeras de vídeo para monitoramento, aumentar efetivo de guardas municipais, bancar a limpeza pública, desentupir bueiros e galerias, fazer o desassoreamento de rios – que também recebem descargas de sofás e pneus velhos, entre outras quinquilharias –, transportar o lixo retirado e por aí afora. Em outras palavras, lida com as consequências. Eis o ‘x’ da questão. Não são combatidas as causas desse prejuízo serial.

Para resolver problemas tão sérios como o vandalismo, o despejo irregular de lixo (em ato proposital ou inconsciente) e tantos outros, é preciso atacar as causas. Falo do aculturamento da população. É um processo lento, sim. Não se faz do dia para a noite. Exige paciência, preparo e dedicação dos educadores, além de ampla mobilização popular. Mas, nunca terminará se não começar.

É preciso estimular a prática da cidadania e despertar a consciência para que cada um cuide melhor daquilo que é de todos. O aculturamento tem de começar pela educação formal, já na infância, e avançar para quem está fora das escolas, por meio da mobilização da comunidade. Em parceria com lideranças da sociedade civil organizada, é possível trabalhar para mudar o comportamento individual e estabelecer uma nova conduta social. Seja para coibir atos de vandalismo e despejos ilegais de lixo. Seja para frear atitudes automáticas como a de jogar sujeira nas ruas.

Paralelamente, é vital resgatar a educação familiar. Os pais da atualidade precisam saber pregar aos filhos o senso de responsabilidade, do que é correto, ético e moral. Antigamente, era assim. Havia rigor na chamada criação. A conduta começou a mudar e, aos poucos, a carga acabou transferida para os educadores, o que sobrecarregou os profissionais do ensino. Diante do quadro, a escola em período integral torna-se essencial. Permite às crianças, gradativamente, apreender os conceitos que faltam em seu lar a fim de que, quando adultos, possam transferir este aprendizado a seus filhos dentro de casa, sem deixar tudo somente a cargo dos professores, como é hoje.

A mudança de pequenas atitudes produz enormes resultados. Não será preciso gastar fortunas do dinheiro do povo com limpeza pública e reparos dos estragos das enchentes, por exemplo. Já o vandalismo, os lixões clandestinos e outras práticas ilegais tendem a ser vencidos pela soma da conscientização com a vigilância exercida pela sociedade.

Quanto maior a demora no início de vigorosas ações para mudança de comportamento, mais tempo levará para que a sociedade viva melhor. E muito maior será o desperdício de recursos públicos para combater efeitos das causas que poderiam ser abatidas no ninho. Todo este dinheiro poderia ser aplicado em medidas de extrema importância social. É o caso da instalação de muito mais postos de saúde nos bairros carentes e da implantação do período integral nas escolas. São ações que defendo como candidato a Deputado Federal. Com o período integral, crianças e adolescentes teriam ensino de melhor qualidade, práticas esportivas e atividades culturais o dia todo, sem o tempo ocioso que, atualmente, vira convite ao caminho das drogas e da violência. Então, vamos fazer porque o momento é agora.

Junji Abe
Candidato a Deputado Federal pelo DEM - 2545

sexta-feira, 9 de julho de 2010

De corpo e alma

Todo cidadão de bem deseja viver num País melhor, num Estado bem estruturado, numa cidade agradável. Quer atendimento decente nas unidades de saúde, oportunidades no mercado de trabalho, segurança – em sensação e de fato –, boa educação para seus filhos, água tratada nas torneiras, esgoto coletado e conduzido a estações de tratamento para não poluir os cursos d’água, idas e vindas em transporte adequado, trânsito organizado, moradia digna, opções gratuitas de lazer e tantos outros justos anseios que sustentam a qualidade de vida.

Sim, vou falar sobre eleições. Sei que muitos acham o assunto maçante, cansativo mesmo. Mas, é o único caminho para mudar o que a gente tanta critica e tornar real aquilo de que a gente precisa para viver melhor. É o meio de cada um exercer seu sagrado direito de escolher seus representantes no poder. E de fazer valer sua vontade.

É verdade que os desatinos de alguns políticos são de enraivecer até um monge tibetano. Porém, a classe política inteira não pode pagar pelos erros dos maus políticos. Daqueles que praticam corrupção, agem sem ética nem moralidade, ignoram as necessidades da população, são omissos, fogem do trabalho, não prestam contas de suas ações, não honram os votos recebidos, enfim,não cumprem a obrigação elementar de bem representar o povo.

Mas, não adianta desfiar o rosário de queixas sobre a má conduta dos políticos. O instrumento ideal de protesto com efeito prático chama-se voto. É nas eleições que os cidadãos de bem têm e devem exercer seu poder de escolha. É fundamental dedicar um tempinho para analisar os candidatos, conhecer seu passado, suas propostas, seu jeito de fazer política. Se tiver dúvidas, questione, cobre explicações, peça detalhes.

Aliás, se o candidato não tiver canais eficientes de contato agora, em plena campanha eleitoral, dificilmente os terá se for eleito. Vale lembrar que a transparência é um ponto crucial para quem quer que se proponha a atuar na vida pública. Como o próprio nome já diz, o homem “público” não pode se dar ao luxo de manter suas ideias e atos em segredo.

Com essas considerações, coloco meu nome à disposição como candidato a deputado federal pelo Partido dos Democratas, o DEM. Meu número é 2545. Não, não pare de ler. Faça um esforço e prossiga. Não escrevi este artigo só para pedir seu voto. Na verdade, peço bem mais. Apelo para que dedique seu tempo à análise criteriosa dos concorrentes e ponha toda sua consciência na seleção dos escolhidos para receber sua aprovação nas urnas. Em resumo, prego o voto consciente. É essencial saber quem é o candidato e por que está votando nele. Também é importante lembrar-se daqueles em quem votou. Mais ainda: cobrar a atuação dele, se for eleito. É o exercício da cidadania para banir os maus políticos e garantir que os bons sejam ainda melhores.

Ao me apresentar como candidato a deputado federal, convido para uma avaliação do meu histórico e trajetória na vida pública. Trago a experiência de ter exercido cargos no Legislativo e no Executivo, além de um legado de 35 anos de atuação como líder rural – sindicalista, cooperativista e associativista. Ainda hoje, sou, orgulhosamente, um produtor de orquídeas e também trabalho como consultor em gestão pública e empresarial.

Comecei como vereador (1973-1976), após receber a maior votação da história de Mogi das Cruzes. Por três legislaturas seguidas, de 1991 a 2000, atuei como deputado estadual, honrando votos recebidos em cerca de 500 dos 625 municípios paulistas. Deixei a Assembléia Legislativa de São Paulo para assumir a Prefeitura de Mogi das Cruzes. Durante oito anos, tive a honra de governar a Cidade onde nasci, cresci, moro e desenvolvo minhas atividades profissionais. É também onde me casei (com a Elza), criei meus filhos e convivo com meus netos.

Ao longo da jornada política, acertei muito e também errei bastante, mas, acima de tudo, aprendi dia após dia. Recebi preciosas lições em cada passo desta caminhada. De todas, as mais importantes sempre vieram do povo. Fazer da população minha principal consultora foi meu ato mais acertado na vida pública. Por formação pessoal ou pelas décadas a fio de atuação sindical, o fato é que sempre valorizei o relacionamento humano com todas as glórias e dificuldades que ele traz. Nunca me privei da dádiva de interagir com as pessoas para compartilhar ideias, buscar soluções, discutir planos, avaliar ações, tratar dos mais variados assuntos. Acredito que a conciliação verdadeira só pode sair da diversidade.

Para a nova etapa que me proponho a seguir na vida pública, não é diferente. Estou profundamente envolvido com as lideranças comunitárias das cidades paulistas. Da soma entre minha vivência e as reuniões com este pessoal, surgiu o PGP – Plano de Gestão Parlamentar. Tem a mesma sigla do programa que pautou meus dois mandatos como prefeito de Mogi, porque segue o mesmo conceito de participação popular na definição das metas de trabalho. Na ocasião, o Plano de Governo Participativo foi elaborado em conjunto com o povo mogiano, ao longo de meses de debates nos bairros.

Como um deputado federal tem a incumbência de representar o Estado, o PGP traz minhas principais bandeiras de atuação e tem edições específicas para regiões que apresentam situações diferenciadas. Durante a campanha eleitoral, terei oportunidade de detalhar o PGP e as propostas nele contidas.

Para ampliar as chances de aprofundar e melhorar as propostas de atuação, lembro que mantenho ativos todos os canais de comunicação – convencionais e na internet. Que ninguém espere de mim um festival de promessas. Isto não vai acontecer. Concorro a um cargo no Legislativo e, se eleito, dependerei dos demais deputados, dos senadores, do governador e do presidente eleitos para que os planos virem realidade.

Acima de tudo, sou um homem que honra compromissos. Ao pedir uma oportunidade para representar você em Brasília, sou o único responsável pela avaliação que fará de mim. Na bagagem da cabeça, trago a experiência, as lições aprendidas nos mais de 20 anos de dedicação à vida pública, a certeza de aprender mais e mais, uma gigantesca força de trabalho, o inesgotável desejo de servir sempre melhor o meu povo e a fé inquebrantável de que sou capaz de corresponder às expectativas de cada um que confia em mim. Na bagagem da alma, trago tudo isto também.
Junji Abe
Candidato a Deputado Federal pelo DEM - 2545

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Apito com tecnologia

Bola cruza a linha do gol, mas o trio de arbitragem não vê. Ingleses pagam o pato. Jogador em posição de impedimento faz a rede balançar e gol irregular é validado. México sofre as consequências. São apenas os dois episódios mais recentes de erros crassos de árbitros em partidas de futebol. Tudo para o mundo inteiro ver e rever. Em plena Copa do Mundo, nos jogos pelas oitavas de final. Aos times derrotados, restou a eliminação com a frustrante volta antecipada para casa. A nós, pobres mortais, resta a pergunta: por quê a Fifa ainda resiste em usar a tecnologia no futebol para evitar tantas trapalhadas no apito?
Daí, após os fiascos em campo, o presidente da Fifa Joseph Blatter vem a público pedir desculpas pelos erros de arbitragem. Ora, depois que inventaram o pedido de desculpas nunca mais mataram ninguém, não é mesmo? O sujeito mata e, em seguida, pede perdão. No meu humilde entendimento, não é assim que as coisas funcionam. Pior é o mandatário da federação mundial dizer que irá “reabrir o processo” sobre a tecnologia de vídeo em uma reunião de seu painel de elaboração de regras no País de Gales, que ocorre em julho próximo.

Se a Copa do Mundo ocorre, religiosamente, a cada quatro anos, e a Fifa existe para garantir a gestão eficiente do futebol no planeta, por quê não discutiu o assunto antes? Ou não sabiam que a arbitragem erra – argumento ridículo – ou não queriam mesmo usar a tecnologia no futebol. Afinal, baniram até o replay, uma ferramenta elementar para esclarecer lances duvidosos.

Os recursos eletrônicos são muitos. E já provaram sua eficácia em outras modalidades esportivas, como o vôlei e o tênis, por exemplo. Chip na bola que acusaria quando ela cruzasse a linha, direito a pedido de replay em lances decisivos e sensores nas linhas de meta são algumas das possibilidades tecnológicas de ajuda à arbitragem que, lamentavelmente, passam à distância do mais popular dos esportes, por obra e graça da Fifa.

As dimensões e a velocidade da revolução tecnológica que se processou no mundo foram insuficientes para convencer os dirigentes da organização de que os dispositivos eletrônicos servem para auxiliar a arbitragem e não para substituir alguém. Fique claro que ninguém quer um robô apitando jogo.

Basta olhar ao redor para perceber o quanto a tecnologia melhorou o nível dos serviços de maneira geral e, de quebra, a qualidade de vida da população. A segurança ganhou tremendo reforço com o sistema de monitoramento por câmeras de vídeo. No trânsito, os radares eletrônicos viraram necessidade para conter imprudências. A informação trafega com velocidade sem igual pela rede mundial de computadores, onde as pessoas também passaram a interagir muito mais entre si. São exemplos simples do quanto os recursos tecnológicos produzem resultados positivos em diferentes áreas.

A evolução passou a ter um elo umbilical com a tecnologia. Afinal, o conhecimento existe para ser usado. Não há sentido para o desprezo de ferramentas que serviriam para eliminar ou, pelo menos, reduzir os tais erros humanos.

Alguém poderá dizer que o México perderia para a Argentina de qualquer jeito e que a validação de um gol irregular não mudaria o placar final. Ou ainda, que a vitória da Alemanha sobre a Inglaterra seria inevitável, independente de a arbitragem ter ignorado um gol claro dos ingleses. Será mesmo? Que aposte a mão direita quem puder sustentar isto. É óbvio que as injustiças ocorridas em campo afetaram moral e emocionalmente os jogadores prejudicados. Sem mente sã, não há corpo são. Portanto, não havia como evitar a queda do rendimento em campo dos times prejudicados.

Vou mais longe. Os efeitos dos erros da arbitragem extrapolam o gramado para afetar a torcida. Sim, os milhões de jogadores e técnicos que estão fora do campo. Isto ocorre na Copa do Mundo e fora dela também. Aqui no Brasil, muitos dos conflitos entre torcedores – que se transformam em guerras de gangues – são causados ou fomentados por tropeços dos árbitros. Tenho absoluta certeza de que o uso da tecnologia no futebol seria, também, um meio de evitar a violência entre as torcidas.

Por mais que haja exceções – e elas existem –, a maioria absoluta dos árbitros e auxiliares (bandeirinhas) não inventa e nem comete erros intencionais. Há lances, toques e dribles, entre outras jogadas no futebol, inusitados e com rapidez meteórica, que tornam o acompanhamento humanamente impossível.

Daí, a dificuldade de constatação de determinados lances – impedimentos, faltas dentro da área, pênaltis, gols e inúmeras outras passagens duvidosas – que colocam em xeque autoridade, competência e moralidade dos árbitros e auxiliares.

Por conta de falhas humanas previsíveis, surgem manifestações contraditórias. De um lado, torcidas e cartolas de times beneficiados enaltecem a arbitragem. De outro, jogadores e torcedores das equipes prejudicadas destilam sua ira contra quem apitou o jogo e suas respectivas mães. Estas têm os nomes lançados ao fogo eterno do inferno.




Enquanto árbitros e auxiliares que falharam em campo têm suas vidas profissionais ameaçadas, nada acontece aos cartolas e membros das comissões de arbitragem, das Ligas, Federações, Confederações e principalmente aos insensíveis integrantes da Fifa, verdadeiros culpados da situação. Ao invés de tomarem providências para evitar outros erros, preferem lavar as mãos, culpando juízes e assistentes, imolando-os com punições, como suspensões ou até expulsões do quadro.

Essa triste realidade precisa mudar – mudança já é o que prego e, em coro mundial. Assim devemos proceder. Não há mais espaço para argumentos ou justificativas primitivas, improcedentes, inconsequentes e infantis, como a de que a polêmica e a dúvida sobre os lances nutrem a paixão pelo futebol.

Isto não é verdade. Nem no futebol, nem na vida. Como cidadãos de bem, cultuamos nossas atividades e participações no que quer que seja com alegria, com paixão, com emoção, com sofrimento e com amor, mas, acima de tudo, com senso inabalável de Justiça. É ela a base da igualdade, da fraternidade e da liberdade que todos desejamos e de que necessitamos.

Por esses motivos, na condição de torcedor e apaixonado por futebol como milhões de brasileiros, apelo ao bom senso da Fifa. Já passou da hora de seus dirigentes tirarem a redoma de intocáveis para ouvirem também o clamor de quem está fora de campo. Mas, tão dentro quanto qualquer jogador.

Queremos que um time ganhe por mérito e não pelo erro do árbitro. Não adianta a Fifa vir com a ladainha de que vai desenvolver um programa de aperfeiçoamento da arbitragem, sem usar os dispositivos tecnológicos. São seres humanos que apitam os jogos. Logo, continuarão errando. Como reza o ditado popular, “errar é humano”. Mas, cá entre nós, persistir no erro é burrice mesmo. Então, que venha a tecnologia no futebol! Vale o lembrete: “quem não deve, não teme”.

Junji Abe (DEM) é ex-prefeito de Mogi das Cruzes

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Luta contra os vícios


Homem chega em casa bêbado, espanca a esposa e bate nos filhos. Motorista embriagado perde o controle do carro e atropela pedestres. Overdose de ecstasy mata jovem em festa rave. Criança morre em tiroteio entre polícia e traficantes. Viciado em crack, filho esfaqueia e assalta a própria mãe. Estas e outras tantas notícias ruins, muito ruins, fazem parte da rotina de quem vive em médios e grandes centros urbanos.

Tragédias do gênero têm em comum o mesmo indutor: as drogas. São elas que, depositadas no organismo humano, transformam gente em animal selvagem. Embotam o raciocínio, exterminam toda civilidade e sugam a alma humana, neutralizando qualquer resquício de compaixão, bondade e amor. Desaparecem os bons sentimentos. Em relação aos outros e a si próprio. Com saldo de estragos de maior ou menor proporção, dependendo do tipo e do nível de dependência, todas são prejudiciais à saúde física e mental, ao convívio familiar e ao bem-estar social.

Fique claro que as preocupações vão além dos entorpecentes. Falo do fumo e do abuso de outra droga lícita que facilita a dependência química e a delinqüência na idade adulta, como confirma estudo com 11 mil adolescentes, realizado na Inglaterra. Trata-se da bebida alcoólica. Os riscos aos nossos jovens não se limitam ao território das baladas e muito menos ao período de Carnaval. Estão em todo canto. Até em casa, considerando a influência exercida pelos pais sobre os filhos.


Não falo como moralista de gaveta e nem como alguém que nunca teve um vício sequer. Fui fumante décadas atrás. Eram dois maços por dia e, de tão viciado, não conseguia dormir sem um cigarro nos dedos. Cheguei até a queimar o colchão e, por pouco, isto não virou uma tragédia com incêndio de grandes proporções. Quanto ao álcool, não bebi e não bebo. Meu organismo rejeita qualquer bebida alcoólica, por menor que seja a dose. Aliás, sorte minha. Caso contrário, poderia ser um bebum.

Para quem acha inofensivo deixar o filho adolescente beber uma cervejinha, vale o alerta do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Segundo o levantamento, 48,3% dos adolescentes do País, com idades entre 12 e 17 anos, já beberam alguma vez na vida. Destes, 14,8% bebem regularmente e 7 em cada 100 menores já são dependentes do álcool.

Em outra pesquisa, o fato apurado é ainda mais assombroso: jovens entre 14 e 17 anos são responsáveis por 6% de todo o consumo anual de álcool no País. Intitulado “Distribuição do consumo de álcool e problemas em subgrupos da população brasileira”, o estudo constatou ainda que jovens de 18 a 29 anos consomem 40% do total de bebedores e que os homens representam 78% dos consumidores de bebida alcoólica.

O consumo abusivo de álcool cresceu de 16,2% da população, em 2006, para 18,9%, em 2009. São dados do Ministério da Saúde que considera excessiva a ingestão de cinco ou mais doses de bebida alcoólica na mesma ocasião em um mês, no caso dos homens; ou quatro ou mais doses, no caso das mulheres.

Não por menos, a OMS – Organização Mundial de Saúde estima que, por ano, 2,5 milhões de pessoas morram no mundo por causa do abuso do álcool. No mínimo 320 mil destas vítimas são jovens de 15 a 29 anos.

As consequências funestas do consumo abusivo de bebidas alcoólicas são reconhecidas pelo governo federal que lançou campanha visando conter a ingestão excessiva do álcool para reduzir a violência. Explica-se: levantamento do Ministério da Saúde revelou que um em cada quatro homens abusa do álcool e uma em cada dez mulheres bebe demais. Neste caso, o foco são os adultos. Imagine quão danosos são os efeitos desse comportamento nos adolescentes.

Num lar de família desagregada, é muito maior a probabilidade de um adolescente cair no vício de cigarro e bebidas. Do abuso das drogas lícitas para a malfada estrada dos entorpecentes, basta um passo à frente. É rápido e, na maioria das vezes, sem volta. Daí, para a vida de crimes e de todo tipo de violência, é só uma questão de tempo. Pouquíssimo tempo.

A lei proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores. Na prática, não funciona. Primeiro, porque nem todo comerciante a obedece. Ao mesmo tempo, a fiscalização é falha. Não bastasse, o adolescente sempre tem um colega maior de idade para fazer a compra. De quebra, ainda existem as carteiras de identidade falsificadas. Portanto, a vigilância concreta cabe mesmo à família.

Claro, o Poder Público pode e deve agir para evitar que crianças e adolescentes virem presas fáceis das drogas. Um dos pontos cruciais no processo é implementação de políticas públicas para combater a ociosidade fora do período de aulas.

Ao longo de duas gestões na Prefeitura Mogi das Cruzes, desenvolvemos exitosos programas para proporcionar ocupação saudável aos menores. Entre os projetos de maior expressão em diversas áreas, destacam-se o “Coral Canarinhos do Itapety”, a “Orquestra Sinfônica Jovem Minha Terra Mogi” e a Banda Boigy, envolvendo centenas de crianças que, por meio da música, criaram a perspectiva de um futuro melhor, longe da violência e da criminalidade.

No campo dos esportes e recreação, vale citar A Rua Feliz – um parque de diversões itinerante que levava aos bairros dezenas de brinquedos e atrações culturais –, o Esporte Mogi, desenvolvido em parceria com a iniciativa privada, para levar atividades esportivas, noções de ética e promoção da cidadania às crianças de regiões carentes da cidade e o programa “Sanção Premial”, que garantia isenção do IPTU para clubes que oferecessem atividades esportivas e recreativas gratuitas a alunos das escolas municipais, além das aulas de esportes – de iniciação à formação de atletas – ministradas nos centros esportivos, em clubes privados e escolas, em dezenas de modalidades.

Ainda dentro do conceito de proporcionar ocupação saudável às crianças e adolescentes e de promover o convívio familiar, lançamos as bibliotecas comunitárias e abrimos as escolas nos finais de semana para uso dos moradores. Todas, dotadas de laboratório de informática e bibliotecas multimídia.

Com um amplo trabalho de profissionalização das entidades comunitárias, viabilizamos parcerias com a sociedade civil organizada, multiplicando os polos de diferentes projetos. Inclusive, o gerenciamento de creches. A valorização do ser humano, sua integração à sociedade e o exercício da cidadania deram a tônica das ações desenvolvidas para promover a inclusão social das famílias carentes e atuar efetivamente na prevenção da violência, afastando os menores do caminho das drogas.

São apenas alguns exemplos de como o Poder Público pode colaborar no combate ao uso de drogas – incluindo fumo e bebidas. Não basta controlar propaganda. É preciso oferecer opções atraentes às crianças e adolescentes para que, bem orientadas e envolvidas com atividades multiculturais e esportivas, escolham dizer não aos vícios.

É uma missão hercúlea. Se cumprida, traz benefícios que extrapolam a qualidade de vida individual e a boa convivência familiar. Significa contribuição direta para o bem-estar social, haja vista que a violência tem relação umbilical com as drogas. Nada está perdido. Depende do nosso esforço garantir um futuro melhor aos nossos filhos e netos.
Junji Abe (DEM), ex-prefeito municipal de Mogi das Cruzes

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Como fugir das tentações do consumo

Não é de hoje que se fala que ir ao shopping é uma distração. Na verdade, transformou-se em opção de lazer para muitas famílias que, sem outras alternativas, vê no centro de consumo o destino certeiro para o tempo livre. O problema é que este entretenimento nem sempre é saudável para o orçamento familiar. Diante da sedução dos produtos expostos nas vitrines, não raro, o visitante extrapola o limite de apreciar e sucumbe à tentação de comprar. Mesmo sem dinheiro no bolso. Afinal, existe a moeda de plástico, maravilha da vida moderna – que vira pesadelo quando chega a fatura do mês. Aí, o tal cartão de crédito exibe suas garras.

Engana-se quem acha que o impulso de consumir acomete só as mulheres. Já vi muitos homens endividados por conta de compras repentinas de itens desnecessários. Sim, comprar sem pensar traz o inconveniente extra de adquirir produtos absolutamente dispensáveis.

Aliás, o conselho número um dos especialistas em finanças ao consumidor é perguntar a si mesmo, antes de comprar: “Será que eu preciso mesmo disso?” Uma colega de trabalho costuma dizer que, quando sente aquele irresistível desejo de fazer compras, tranca-se no quarto e espera a vontade passar. Bom, nem é preciso ser tão radical, mas um pouco de cuidado com o bolso não faz mal a ninguém.

Falo isto porque vejo gente que conheço fazendo coisas absurdas. Está no vermelho, usando limite do cheque especial, com contas em atraso e continua comprando no cartão de crédito. Mais: com as facilidades da internet, nem precisa sair de casa. Basta acessar a rede e pronto. Está feita a aquisição. É a falta de autocontrole.

Há ainda os casos de quem busca nas idas ao shopping para gastos de toda ordem o alívio do estresse. Utiliza as compras como meio de compensar o desgaste cotidiano. Uns comem um montão de chocolate; outros compram. Nem um, nem outro faz bom negócio. Ambos têm satisfação temporária. Mais tarde, no entanto, vem a insatisfação gigantesca. O primeiro passa a brigar com a balança. Já o segundo entra em pane com a fatura do cartão de crédito.

Quando está sob forte tensão emocional e resolve comprar para espantar a depressão, a primeira coisa que vem à mente da pessoa é a velha frase: “Eu mereço”. Seja uma bolsa, um calçado, um celular, tudo em nome de um suposto mérito por suportar tanto desgaste. O fato é que esta frase pode ser a grande inimiga mais tarde. Se a pessoa quer relaxar depois de um dia tumultuado, o melhor a fazer é não ir ao shopping. Afinal, quem garante que o autocontrole estará presente para frear o impulso de gastar mais e mais? É bem mais seguro optar por uma caminhada ao ar livre, longe das vitrines.

Outro conselho dos especialistas aos consumidores mais impulsivos: só comprar quando se tem dinheiro no bolso para pagar à vista. A maioria das pessoas usa o cartão de crédito de forma errônea. Eles alertam que o cartão é um instrumento para facilitar as compras e conseguir vantagens em bônus com as operadoras; não para financiar as aquisições.

Voltando ao passeio ao shopping em família, o alerta deve ser redobrado. Em especial porque a associação entre crianças e centros de consumo não faz bem ao bolso dos pais. Acho que todos já viram cenas de crianças, aos berros, esperneando para fazer os pais comprarem algo que elas desejam.

Para evitar esses episódios, a orientação é conversar antes com os pequenos sobre a importância dos gastos, as necessidades e utilidades dos produtos e até estabelecer limite do valor que será gasto no passeio. Atitudes assim também tornam o lazer menos pesado para o orçamento doméstico e ajudam a formar consumidores mais conscientes.

Evidente que o exemplo deve partir dos pais. Não adiantam longos discursos às crianças se, na primeira loja, o pai compra mais um relógio para a coleção de outros encostados e a mãe leva outro sapato para ficar no armário. Eis porque nossa responsabilidade é grande. Não basta apenas o autocontrole para cuidar das finanças de casa. É preciso educar os filhos para o consumo consciente.

Por fim, mais uma dica. Sei que funciona. Nunca vá fazer compras de supermercado com fome. Escolha o horário logo após o almoço ou o jantar. Motivo: estar faminto faz a gente comprar mais alimentos – de todo tipo. Quando se está saciado, é mais fácil seguir a lista e comprar só o necessário. Experimente e boas compras!
Junji Abe (DEM), ex-prefeito municipal de Mogi das Cruzes

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Crescimento sem fronteiras

A elevação da qualidade de vida exige, cada vez mais, a implementação de políticas públicas de caráter regional. A cultura histórica do bairrismo, por si só, vai dando lugar às novas e céleres transformações que a humanidade vem sofrendo.

Com a era da informatização, marcada pelo fabuloso crescimento da internet e de suas redes sociais, entrou em cena a sociedade da informação, que consolida a irreversível realidade do mundo globalizado. Tornou-se premissa para sobrevivência o conceito de “pensar globalmente para agir localmente”.

Na verdade, estamos muito atrasados nesse aspecto. Em que pesem as razões do momento, foi uma pena o saudoso governador Mário Covas ter extinto, em 1995, a Secretaria de Estado de Assuntos Metropolitanos para transformá-la em Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos.

Recentemente, fui convidado para proferir uma palestra sobre o projeto, de autoria do ex-governador José Serra, que prevê a criação da Região Metropolitana do Vale do Paraíba. Vejo como fundamental a aprovação da proposta pela Assembléia Legislativa de São Paulo.

Aliás, sei bem o quanto o trâmite de projetos dessa natureza pode ser demorado. Daí, a importância de esforços conjuntos para destravar o andamento dos trabalhos. Enquanto deputado estadual, participei ativamente das ações em prol da criação da Região Metropolitana da Baixada Santista, também proposta pelo governo do Estado.


Qual o conceito da Região Metropolitana? É bastante amplo. Citarei os principais aspectos. Veja o tamanho das desigualdades entre localidades vizinhas. Ao redor de grandes municípios, existem médios e pequenos, com limites geográficos apenas teóricos. De fato, formam uma única gigantesca cidade. Porém, com diferenças gritantes, notadamente no que diz respeito ao Orçamento. Como exemplos, estão Barueri em relação à Carapicuíba, São Caetano comparativamente a Rio Grande da Serra, Mogi das Cruzes ante Biritiba Mirim, Taubaté a Tremembé e assim por diante.

Por conta dessa disparidade de Orçamento entre municípios colados uns aos outros, as diferenças são tão calamitosas. De uma cidade para outra, as condições de água, esgoto, saúde, educação, transportes, habitação, segurança, asfalto, empregabilidade e outros itens vitais à população mudam como da água para o vinho. É como se os povos dessas localidades vizinhas não fossem habitantes do mesmo Estado, do mesmo País. Tudo ocorre de forma incorreta e revoltante. São distorções do processo político-administrativo no Brasil, que passa alheio aos problemas das regiões metropolitanas.

Não existe rio que nasça e acabe num mesmo município. Afinal, num País continental como no nosso, os rios são intermunicipais, interestaduais e até internacionais, como o Tiête e o Amazonas. E aí, como fica? Salesópolis trata 100% dos esgotos gerados, Mogi cuida de 40% e Guarulhos despeja nos cursos d’água 98% dos esgotos coletados sem tratamento. São cidades vizinhas.

Outro exemplo: Barueri tem as melhores escolas municipais e sistema de saúde muito bom; porém, a vizinha Carapicuíba oferece má qualidade de educação e péssimos serviços em saúde. Ocorre que tanto os moradores de uma cidade quanto os da outra são paulistas e brasileiros.

O setor de transportes é mais um alvo do emaranhado de distorções no desenvolvimento de localidades vizinhas. No passado, era muito pior, mas ainda hoje persiste o problema das tarifas diferentes cobradas em cidades pegadas uma à outra. Aliás, a Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos foi criada com a principal missão de, gradativamente, integrar as linhas de ônibus intermunicipais e, depois, estender o processo aos trens.

Muitos perguntarão: “Mas só isso? Os municípios da Região Metropolitana não terão orçamentos acrescidos? Citar as diferenças, tudo bem, mas, e daí?” Evidente que serão necessários investimentos pesados para reduzir as desigualdades sócio-econômicas entre as cidades, bem como recursos financeiros vultosos para obras e implantação de infraestrutura para atender necessidades comuns da região.

E, de onde sairão esses recursos? De Fundos que, a médio e longo prazos, terão condições de contribuir para os objetivos aqui apregoados. Aliás, a Lei Estadual que constituiu a Região Metropolitana de São Paulo previu a criação do Fumefi – Fundo Metropolitano de Financiamento e Investimento, que visa direcionar financiamentos e investimentos a municípios considerados “pobres”, ou seja, sem potenciais orçamentários para fazer frente às diversas demandas sociais. Como poucos ouviram falar em Fumefi, para um entendimento amplo sobre como tratar os desiguais, cito aqui o instrumento que a União há anos implementa na área educacional. Trata-se do antigo Fundef – Fundo Nacional de Desenvolvimento de Educação Fundamental, transformado no atual Fundeb – Fundo Nacional de Desenvolvimento de Educação Básica.

Muitos políticos brasileiros só criam despesas de custeio. Para ilustrar, conto o que aconteceu no meu primeiro mandato de deputado. Foi aprovado na Alesp um projeto de Lei que flexibilizou e facilitou muito a emancipação de Bairros e Distritos para se tornarem novos municípios. Guatapará é um exemplo – emancipou-se da cidade de Ribeirão Preto.

A justificativa para essas emancipações era a de que a transformação em município elevaria a qualidade de vida dos moradores. Ledo engano. Salvo raríssimas exceções, o festival de localidades emancipadas visava tão somente satisfazer o ego de políticos que, como líderes locais ou vereadores, queriam ter o cargo de vice ou de prefeito da recém-criada cidade. Haja dinheiro para bancar tudo isso. A constituição de representantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, assim como de unidades de órgãos públicos, exige recursos financeiros astronômicos.

No Japão, ao contrário, nos últimos 10 anos, pequenos municípios foram incorporados ou agregados aos maiores. É o caso de 11 municípios localizados ao redor da cidade de Seki, que se transformaram em distritos de Seki. Ao todo, naquele país, houve a diminuição de aproximadamente 120 municípios. E com esta medida uma fantástica redução de despesas político-administrativas.

A maciça concentração humana vem aliada ao fato de que a maioria das demandas sociais não tem fronteiras. Saúde, educação, segurança, habitação, saneamento, meio ambiente, entre outras áreas, exigem plano estratégico de intervenções, com dimensão regional.

A criação de Regiões Metropolitanas tem como meta integrar as ações público-administrativas para aumentar a eficiência e reduzir o déficit público decorrente de custeios desnecessários, diminuindo as diferenças prejudiciais entre os municípios. Tudo para proporcionar uma qualidade de vida melhor à população. É a lógica tão cristalina, sintetizada na célebre frase de Rui Barbosa, mas não exercitada: “tratar os desiguais com desigualdade”.

Junji Abe é ex-prefeito de Mogi das Cruzes

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Divina Bandeira





“Os devotos do Divino vão abrir sua morada
Pra bandeira do menino ser bem-vinda, ser louvada.
Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome...”
Ivan Lins
O ser humano recebeu de Deus sentimentos que se manifestam interna e externamente, de formas diversas. Por vezes, vêm suaves; noutras, intensos, conforme os acontecimentos. Alegria, tristeza, satisfação, preocupação, raiva, revolta, gratidão e emoção, dentre inúmeros outros, fazem parte da nossa existência.

Pinço rapidamente dois – emoção e gratidão. Elejo-os como os principais para nortear este artigo. Seria muito egoísmo da minha parte se não divulgasse os acontecimentos vividos com a Bandeira do Divino Espírito Santo. Confesso que, gostaria de ser poeta para fazer as palavras bailarem à altura da indizível emoção. Como não sou, talvez não encontre o texto adequado para descrever o que me vai na alma. Contudo, não falta o necessário desejo de relatar minha grata experiência.

De 1991 a 2000, desempenhando a honrosa função de deputado estadual, todos os anos, me postava no palanque instalado no Largo Bom Jesus, em frente à Igreja de São Benedito, na querida cidade de Mogi das Cruzes. Dali, acompanhava a Entrada dos Palmitos. Trata-se de um cortejo fabuloso, com milhares de devotos, cada qual carregando a Bandeira do Divino e cantando, com fervor. Há também os grupos de congada e marujada, tocando e dançando, cavaleiros desfilando com seus imponentes animais, carros de boi enfeitados – em gratidão à colheita –, passando ao som do rangido característicos das rodas e muitas crianças – umas concentradas, outras infinitamente alegres. Tudo, com a predominância da cor vermelha, numa autêntica manifestação de fé e louvor ao Divino Espírito Santo.

Gente, sinceramente, são indescritíveis os sentimentos. Fluem pelas artérias, abraçam cada neurônio e fazem a alma transbordar sob a forma de lágrimas que, silenciosamente, molham a face externando uma minúscula parcela de tanta emoção.

Aqui, registro toda gratidão à amiga Leila Mathias que, por ser de família tradicional de Sabaúna, todos os anos fez questão de me convidar para a Festa do Divino Espírito Santo de Sabaúna. Foi assim que conheci melhor, me apaixonei e comecei a amar cada instante dessa celebração da Igreja Católica.

Sempre levei em consideração os ensinamentos dos missionários, fossem bispos ou padres, de que o aspecto festivo do Divino deve ser precedido, fortemente, pela parte religiosa, com o propósito de plena evangelização. Por isto, em 2001, no primeiro ano de nosso mandato como prefeito, solicitei à Comissão Pró-Festa do Divino, que avaliasse a possibilidade de instalar o Sub-Império na sede do Poder Executivo. Resposta positiva. Que emoção!


A equipe do Fundo Social de Solidariedade de Mogi das Cruzes, comandada pela minha esposa Elza e pela professora Marlene Alabarce, cuidou de todos os detalhes. Então, pela primeira vez, com as ilustres presenças do Padre Vicente Morlini, Festeiros e Capitães de Mastro, devotos, voluntários e servidores municipais, recepcionamos o Sub-Império. E, de lá para cá, todos os anos, este sagrado ato religioso se repete. A fé, somada à participação popular e parceria com a sociedade, garantiu dois mandatos auspiciosos.


Estimulados pelas amigas Marlene, Leila e outras companheiras, em 2001, Elza e eu participamos da Entrada dos Palmitos. Tive a suprema honra e alegria de carregar a Bandeira do Divino do saudoso José Roberto Manna de Deus, cedida pela sua esposa, nossa inesquecível amiga Amália Manna de Deus. Que responsabilidade! Mas, Deus, com Sua infinita bondade e sabedoria, deu-me forças para que a sagrada bandeira fosse conduzida por mim, altaneira, como tem de ser. A emoção foi nossa cúmplice do início ao fim.

Quando falo da Amália, preciso destacar a mulher excepcional, exemplo de bondade, amada na Cidade e sempre pronta a ajudar a todos. Mogi aprovou nossa sugestão de fazer-lhe uma homenagem póstuma dando seu nome ao Pro-Hiper – um centro especializado no atendimento à Terceira idade –, lugar de respeito, reconhecimento, gratidão, amparo e amor às pessoas, qualidades que Amália reuniu e praticou cada dia da sua vida.

Que Nosso Senhor possa transmitir ao casal Manna de Deus, lá no plano celestial, nossa eterna gratidão. Nos anos seguintes, o filho Caíque, em nome da família, continuou me cedendo a Bandeira do Divino. E assim participamos dos cortejos da Festa do Divino Espírito Santo ostentando, orgulhosos, o estandarte.

Este ano, a amiga e festeira Flávia Cassola Silva encomendou, a meu pedido, uma Bandeira para nossa família. É maravilhosa, fantástica mesmo. Fui às lágrimas quando o sagrado estandarte do Divino foi benzido pelo pároco. No sábado, dia 16, carreguei a Bandeira do Divino na Entrada dos Palmitos. Com todo orgulho que ela inspira e toda humildade que a celebração exala. À Flávia e Jefferson, nossa profunda gratidão por nos ter propiciado este momento de emoção ímpar.


O Criador me proporcionou outra inédita e generosa participação na Festa do Divino Espírito Santo. Era 2001. Em companhia de dezenas de servidores municipais, servimos a milhares de devotos o afogado – prato tradicional do evento, à base de carne e legumes. Foi uma noite memorável – a primeira de muitas que viriam nos anos seguintes. Deixo um agradecimento especial à Comissão Pró-Festa do Divino que nos brindou com a dádiva dessa experiência. Aliás, tão proativa que persiste, apesar da mudança no poder político-administrativo. Tornou-se uma espécie de tradição o prefeito e alguns colaboradores dedicarem uma noite à tarefa de servir o afogado.

Abro aqui um parênteses para contar um episódio interessante. A parte festiva do evento, inclusive o afogado, ocorria numa tímida área ao lado do Ginásio Municipal de Esportes. Não comportava os visitantes e não havia vagas para estacionamento, bloqueando o crescimento da Festa. A partir de 2002, resgatamos um imenso espaço que servia como “cemitério de carros” apreendidos por documentação irregular. Com infraestrutura adequada, o local tornou-se um polo de eventos ao lado do CIP – Centro de Iniciação Profissional.

Já em 2002, oferecemos à Associação Pró-Divino o novo espaço para realização de toda parte festiva, incluindo as dependências do CIP para garantir aos visitantes espaço apropriado para saborear o afogado. No segundo mandato à frente da Prefeitura, instalamos sanitários e completamos com a Avenida Cívica. Assim, acabava o martírio da falta de vagas para estacionamento.

Foi o nosso modo de dar o mínimo de retribuição, sob a forma de conforto e segurança, aos integrantes da Associação Pró-Divino e aos devotos, demonstrando nossa gratidão e colaborando para o desenvolvimento da Festa. Sabíamos que o público aumentaria ano após ano em ritmo acelerado.

A Festa do Divino Espírito Santo une religiosidade, cultura e tradição. Mas, não é só. Renova a fé, inspira a solidariedade e resgata valores éticos adormecidos. A perfeita conexão entre a beleza da forma e a nobreza do conteúdo está em tudo. No Império do Divino, nas procissões, no entusiasmo das voluntárias no café matinal, na nobre missão das rezadeiras, na Entrada dos Palmitos, em cada bandeira ostentada com orgulho. Está também no afogado, nos doces das “abelhinhas” e em tantos outros quitutes da quermesse – fruto da dedicação de fiéis que se transforma em benefícios para pessoas carentes. Diante de tantas dádivas, basta ter fé, participar e rogar ao Divino que derrame seus dons sobre a nossa Cidade, nosso Brasil e nossa gente.

São 11 dias de uma extensa programação que mexe com a Cidade e atrai milhares de visitantes de outros municípios, Estados e até do exterior. Alvoradas, novenas, missas, procissão que percorre as ruas bordadas com flores e cereais, todos os eventos são essenciais para nós, cristão católicos.

É uma festa de devoção que purifica a alma. Integrar o cortejo é como abraçar o Criador. E se permitir a uma indescritível sensação de paz, que clareia a mente para entender e assimilar o profundo significado dos sete dons do Espírito Santo. Vale conhecer cada um deles. O dom da Sabedoria nos mantém voltados para o bem. Com entendimento, aprendemos a buscar a verdade. A dádiva do Bom Conselho nos ajudar a escolher o melhor caminho. Já a Fortaleza é a coragem, a força para enfrentar as adversidades. Para compreender os sinais dos tempos, há o dom da Ciência. Com a Piedade, nutrimos a compaixão pelo próximo e a caridade. O sétimo dom é o Respeito a Deus, aos valores do amor e da bondade, que nos faz fugir de toda a maldade.

Com sinceridade, confesso que deixo muito a desejar na tradução do que a Festa do Divino representa para mim e minha família. Mas, precisava tentar escrever, compartilhar esta divina experiência. Exatamente por saber que me falta a capacidade e o talento dos grandes escritores, recorro à memória viva dos momentos em que conduzi a Bandeira do Divino. Com esta emoção mergulhada na alma e fazendo brotar lágrimas nos olhos, manifesto a mais profunda gratidão a Deus, ao Divino Espírito Santo, aos voluntários que tudo fazem pelo bem do próximo e a todas as pessoas maravilhosas que me permitiram viver experiências impagáveis ao longo das celebrações.

Junji Abe (DEM) é ex-prefeito de Mogi das Cruzes

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Vitrine do desenvolvimento real

Recém-lançado pelo governo paulista, o sistema digital criado para avaliar o potencial econômico das regiões do Estado mostra de maneira cristalina o quanto São Paulo é fascinante para empreendedores dos mais diversos segmentos. De dentro e de fora do País. Batizado de Potencialidades-SP, o estudo é uma vitrine virtual das cidades, onde o investidor encontra as localidades com as melhores condições para a atividade pretendida. Tudo rápido e objetivo, como um sistema on line deve ser. E confiável por sair de um fonte oficial.

Disponibilizado no site www.investe.sp.gov.br/potencialidades, o sistema possibilita ao empreendedor obter o cruzamento de dados entre seu ramo de atuação, as condições existentes, seus interesses sob diferentes aspectos e as localidades com melhor perfil para receber o investimento.



Para identificar quais são os municípios mais promissores ao desenvolvimento dos variados segmentos de negócios, o estudo leva em conta 100 fatores de atratividade estruturais. Desde infraestrutura logística e energética até incentivos fiscais, passando por disponibilidade de áreas, características de zoneamento, capital intelectual, concentração de público (polos comercial e educacional, por exemplo), recursos naturais e limitações ambientais, entre outros.

O sistema criado pelo Estado faz o marketing das cidades paulistas, multiplicando as possibilidades de atração de investimentos. Antes, cabia a cada município alardear suas potencialidades na expectativa de conquistar novos empreendimentos.

Na realidade, faz mais. O diagnóstico proporcionado ao empresariado também funciona como excelente pauta para os prefeitos. Eles podem direcionar esforços para elevar os indicadores de maior interesse na avaliação dos investidores e obter melhor performance no ranking de localidades chamarizes de novos negócios.

Vale lembrar que a expansão empresarial alavanca a qualidade de vida da população. É a partir do desenvolvimento que o município consegue recursos para investir mais e melhor em saúde, educação, segurança, infra-estrutura, transportes, obras, esportes, cultura, lazer, enfim, em todas as áreas. Isto, além de gerar empregos e renda.

Falo por experiência própria. Cheguei à Prefeitura de Mogi das Cruzes com o desafio de reconduzir a Cidade à trajetória de desenvolvimento. A expansão empresarial estava congelada. Não havia perspectivas de novos negócios nem ampliação dos existentes. Por tabela, a arrecadação de impostos permanecia engessada, deixando os cofres municipais à mingua. Paradoxalmente, a população crescia e, com ela, as demandas sociais, sem que o poder público esboçasse reação.

Diante do quadro, a missão tornou-se obsessão. Providência número um: implantar a Política Municipal de Desenvolvimento. Foi uma ferramenta crucial para alcançar as metas. Envolveu, entre outros itens, legislação específica para atrair empreendimentos e estimular a expansão dos existentes – com incentivos fiscais, doações de áreas a pequenas e médias empresas –, revisão no zoneamento, criação de núcleos industriais, adequação e implantação do Plano Diretor, fomento às microempresas, profissionalização do mercado informal, instalação da primeira unidade do Banco do Povo na Cidade que, durante anos, foi campeã estadual em número de contratos formalizados. Tudo, em sinergia com outras instituições públicas, entidades classistas e universidades.

Paralelamente, a Administração Municipal multiplicou a oferta de cursos gratuitos no CIP - Centro de Iniciação Profissional. Eram apenas dois cursos e 280 vagas, em 2000. Já em 2003, o número de cursos havia saltado para 55, com 2 mil formandos anuais. A Prefeitura também criou um Posto de Emprego e Qualificação para agilizar a oferta e colocação de mão-de-obra conforme as demandas dos empreendedores, além de viabilizar a instalação de uma Fatec, de uma Intec – Incubadora Tecnológica. Tais fatos proporcionaram a Mogi, em 2004, a instalação de dois call centers que, em seis meses, abriram 8 mil postos de trabalho – na maioria, com perfil de primeiro emprego.



A bateria de ações conjuntas fomentou o crescimento industrial, oxigenou comércio, impulsionou o setor de serviços e fortaleceu os agronegócios, consolidando posições de vanguarda da Cidade na produção de hortifrútis e flores. Mogi ganhou cerca de 8,2 mil empreendimentos, entre indústrias, prestadores de serviços e estabelecimentos comerciais. Desponta no Ministério do Trabalho como um dos municípios que mais geraram empregos no País, no período de 2001 a 2008. Foram cerca de 115 mil, entre diretos e indiretos.

Isso tudo ocorreu, apesar das rigorosas limitações ambientais existentes para preservar os recursos naturais do Município que integra o sistema produtor de água destinado ao abastecimento da Grande São Paulo.

Para dimensionar o saldo desse trabalho, basta dizer que Mogi – proporcionalmente à densidade populacional – tornou-se recordista na constituição, implantação e ampliação de empresas, além de figurar no ranking nacional das 100 mais dinâmicas, ser catalogada como uma das mais bem administradas do País, uma das mais promissoras para trabalhar e uma das melhores do Estado para morar.

Para completar, a Cidade conta com o Distrito Industrial do Taboão – o maior e único espaço disponível na Região Metropolitana para expansão empresarial. São mais de 12 milhões de metros quadrados (m²), o bastante para abrigar 100 empresas – com 100 mil m², cada uma, empregar 45 mil pessoas e garantir um extraordinário na receita tributária, injetando nos cofres públicos cifra anual de, no mínimo, R$ 100 milhões referentes a ICMS e outros impostos. Preservado para a finalidade do crescimento empresarial, continuará viabilizando a evolução dos negócios com qualidade de vida.

O surto de desenvolvimento foi o passaporte para avanços nos diferentes setores. E credenciou o município a receber verbas dos governos estadual e federal para outras obras fundamentais ao bem-estar do povo e à atração de empreendimentos. Foi o caso da instalação de uma nova Estação de Tratamento de Águas e Esgotos, incluindo o sistema para drástica redução do lançamento de dejetos in natura nos rios.

Todos estes fatores são considerados no Potencialidades-SP. Não por menos, Mogi está no elenco dos municípios paulistas que oferecem as condições mais favoráveis para instalação de novas empresas na Região Metropolitana de São Paulo. Apresenta maior potencialidade para investimentos em metade dos fatores de atratividade estruturais, estando habilitada ao desenvolvimento das principais atividades agrícolas, industriais e de serviços.

Digo isso com uma porção de orgulho. Deixando a modéstia de lado, me sinto parte do processo de resgate do desenvolvimento em Mogi. Claro, sem perder de vista que os investimentos para atender as justas demandas da sociedade dependem de muito esforço, planejamento criterioso e bons parceiros – no setor público, iniciativa privada e sociedade civil.

Portanto, tenho absoluta certeza de que centenas de cidades paulistas precisam apenas de gestão eficiente, Plano Diretor adequado – que nada mais é que o planejamento integrado – e representantes comprometidos com os anseios da população para fazer aflorar suas potencialidades. E despontar, como Mogi, no ranking das melhores para receber novos empreendimentos.
Junji Abe (DEM) é ex-prefeito de Mogi das Cruzes

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Por quê esqueceram a ferrovia?

Sob qualquer ponto de vista – econômico, político e militar - o sistema de transporte é, inquestionavelmente, a atividade mais importante no mundo.

É possível afirmar, em alto e bom som, que a melhor ou pior qualidade de vida está intrinsecamente ligada ao sistema de transporte.

Detalhar, minuciosamente, todos os aspectos que envolvem o sistema de transportes torna-se inviável pelo exíguo espaço e complexidade do tema. Mas, ouso fazer considerações fundamentais sobre as políticas públicas faltantes neste nosso Brasil continental. Tal deficiência traz gigantescos prejuízos à população.

Transporte ou transportar é o exercício de deslocar, pessoas, animais, produtos ou informações de um lugar para outro. E o elementar nos seres humanos é sempre e permanentemente aprimorar tudo o que está em nosso habitat. No caso específico dos meios de transporte, implica perseguir a rapidez, eficiência, custo baixo e qualidade.

Vejam os avanços fantásticos e, tempos atrás, inimagináveis no setor de comunicações. Aliás, em 1973 protagonizei a implantação de telefonia rural nos municípios de Mogi das Cruzes, Suzano, Biritiba Mirim e Guararema, por meio de sistema cooperativado, pioneiro no Brasil. Foi uma revolução tecnológica de comunicação no campo.

Em especial, nestas duas últimas décadas, o avanço tem sido extraordinário, com alta qualidade e custo cada vez menor. Recebemos e transmitimos informações para quem e onde quer que seja de modo instantâneo. As mudanças tecnológicas carreadas pela modernidade sacodem e colocam em xeque nossa capacidade de acompanhamento. Graças a Deus! Paradoxalmente, quando de trata dos meios de deslocamento para seres humanos, animais e produtos, o que se nota é um sono profundo ou, no máximo, uma lentidão inconcebível. Mais que contraste com a cristalina evolução de outros setores, a letargia que domina o sistema de transportes é uma afronta à população. É verdade que houve avanços, mas são tão minúsculos que em nada contribuem com as necessidades reais e prementes do País.


Há os seguintes meios de transportes: HIDROVIÁRIO – FERROVIÁRIO – RODOVIÁRIO – AEROVIÁRIO – DUTOVIÁRIO. Todos fundamentais por aumentar a competição no mercado, garantir a economia de escala na produção e reduzir os preços das mercadorias. Em que pesem as peculiaridades naturais de cada país, vale observar que, pela ordem, o meio de transporte mais barato é, indiscutivelmente, o hidroviário. Em segundo lugar, vem o ferroviário que custa quatro vezes menos que o rodoviário. Já o aeroviário é o mais caro.

Longe de mim pregar que só interessa ao Brasil o transporte hidroviário, porque é o mais barato. Afinal, concentrar os deslocamentos numa única modalidade é o cúmulo do contrassenso em razão de diferentes distâncias, características dos produtos, prazos e outros fatores.

O ideal é o modelo misto ou intermodal, que consiste na utilização planejada dos serviços integrados de mais de um modo de transporte, de acordo com as necessidades do mercado e peculiaridades da carga. Ou seja, ferro-rodoviário, ferro-hidroviário, ferro-aeroviário, ferro-dutoviário, rodo-aéreo, rodo-hidroviário, rodo-dutoviário, hidro-dutoviário, hidro-aéreo e aero-dutoviário.

No Brasil, as combinações de serviço integrado no transporte passam longe do interesse público. A realidade nacional está na contramão do desenvolvimento. Aqui, o modo rodoviário concentra 54% dos deslocamentos, enquanto o ferroviário detém parcos 21% e o hidroviário responde por apenas 17%. É um cenário de arrepiar qualquer técnico em logística.

Em outras grandes nações, as combinações são bem diferentes. Nos Estados Unidos, o modo rodoviário detém apenas 25%, o ferroviário lidera com 50% e os 25% restantes cabem ao hidroviário. No Canadá, são 13% por rodovias, 52% por trem e 35% pelas hidrovias. A Rússia opera com somente 4% pelo modo rodoviário, deixando 83% a cargo dos trens e 13% pelas hidrovias. Na França, pela ordem, a distribuição é assim: 28% (rodoviário), 55% (ferroviário) e 17% (hidroviário). A Alemanha segue a composição 18%, 53% e 29%.

É revoltante saber dessa triste realidade e angustia-me a impotência no enfrentamento da grave situação. Mas, omissão jamais. Como escreveu Joaquim Osório Duque Estrada na composição do Hino Nacional Brasileiro: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Pinço a frase, com energia e orgulho, para batalhar de todas as formas e até a última instância com o objetivo de mudar os rumos do sistema de transporte neste País, buscando a utilização racional dos serviços integrados no deslocamento.

Vejam a situação insustentável da malha viária brasileira. Tem uma estrutura absurdamente desproporcional à frota de veículos, que cresce a cada dia com novos carros chegando às ruas. O resultado não poderia ser outro, senão o caótico congestionamento. Pior, o trem e o metrô não recebem a prioridade que merecem do Poder Público para serem melhores e mais eficientes a ponto de conquistarem a preferência dos passageiros. Quem anda de carro, amarga engarrafamentos, gastos e revolta. O usuário de ônibus sofre com os atrasos diários, acumula mau humor, indignação, tempo e descanso perdidos.


Quem planta soja em Mato Grosso, Goiás e outros rincões do País tem como aliados terra fértil e clima adequado. No entanto, paga muito mais caro por sementes, fertilizantes, defensivos e outros insumos. Tudo, por causa dos milhares de quilômetros que a carga viaja pelas rodovias. O impacto dos fretes exorbitantes não pára nas lavouras. Por falta de hidrovias e ferrovias, a safra colhida faz o caminho inverso a bordo de caminhões e todo dinheiro gasto neste vai e vem pelas estradas acaba indo para a conta do consumidor na hora em que ele compra o produto final.

Enquanto as autoridades constituídas, acomodadas em gabinetes com ar condicionado, não tomam as devidas providências, a população paga o pato. Consumidor, agricultor, industrial, comerciante, gente de todos os setores produtivos arca com custos cada vez maiores. Quando o empreendedor não suporta, vem a insolvência e, junto com ela, mais desemprego.

Repito: não é possível que os governantes desconheçam que o Brasil tem dimensão continental – ideal para ferrovias, há rios e mais rios – sob medida para hidrovias e a população urbana cresce geometricamente – digna de todo respeito.


A gloriosa história nacional dos transportes hidroviário e ferroviário remonta a 29 de maio de 1852, quando o empresário Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, constituiu a Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis, no Estado de Rio de Janeiro. Em 12 de junho daquele ano, o Governo Imperial concedeu-lhe, por meio do Decreto nº 987, o direito de construção e exploração dos transportes hidro-ferroviário.

Durante quase um século, de 1852 a 1950, o incontestável desenvolvimento do Brasil – notadamente, no Estado de São Paulo – deve-se ao transporte ferroviário. As grandes cidades de hoje, com distância média de 400 a 600 quilômetros da Capital paulista, nasceram da implantação das famosas e históricas estradas de ferro: Mogiana. Sorocabana, Paulista e Rondon. Foi assim com Ribeirão Preto, Presidente Prudente, Marília e Araçatuba, entre outras. Maior que a saudade é o inconformismo com o total desmantelamento dessas linhas férreas.

É imprescindível mudar o quadro. Custe o que custar. Sobejamente, este Brasil é imbatível e invejável enquanto País, porém, num mundo globalizado, esses requisitos não bastam. Temos de protegê-lo com corpo, mente e alma, tirando sábio proveito das dádivas divinas que são as riquezas naturais.

Com empenho, convicção e mobilização popular, precisamos forçar novo direcionamento para investimentos que vêm dos impostos, portanto, do bolso do povo. É vital exigir a imediata prioridade na implantação de estradas de ferro para transporte de cargas e passageiros, como também de estruturas hidroviárias. Isto implica, paralelamente, reduzir a voracidade de grandes organizações que, mancomunadas com maus brasileiros travestidos de autoridades públicas, só pensam, planejam, agem e concretizam gigantescos projetos no sistema de transporte rodoviário. Só têm olhos para rodovias porque é onde faturam bilhões e bilhões de dólares para satisfazer os próprios interesses; não os do Brasil e muito menos os dos brasileiros.
Junji Abe (DEM) é ex-prefeito de Mogi das Cruzes